Histórias Cruzadas (The Help) - 2011. Escrito e Dirigido por Tate Taylor, baseado no romance de Kathryn Stockett. Direção de Fotografia de Stephen Goldblatt. Música Original de Thomas Newman. Produzido por Michael Barnathan, Chris Columbus e Brunson Green. DreamWorks SKG, Reliance Entertainment. / EUA.
Acredito que Histórias Cruzadas (2011) seja realmente um fortíssimo candidato na temporada de premiações que se aproxima. Ele é ótimo, mas não é tão somente por isso que eu o aponto como um dos favoritos. Ele é o tipo de filme, que nos faz sentir bem e que ao final da exibição nos deixa uma agradável sensação de paz e harmonia. Quem já leu a sinopse, deve estar se perguntando como um filme que fala sobre preconceitos e racismo pode ser agradável ou trazer sensação de paz para alguém? Pode parecer absurdo mas é isto que acontece. A trama do longa está ambientada no sul dos Estados Unidos e se passa durante os anos 60. Historicamente, os sulistas são lembrados de forma negativa por terem defendido e prolongado durante anos o fantasma da escravidão, mas mesmo com o abolicionismo, que aconteceu após o fim da guerra civil americana, resquícios da exploração e da exclusão social do negro permaneceram bem vivos e intocados.
Durante os anos 60, enquanto as manifestação pelos direitos civis aconteciam em outras partes do país, no sul o destino de mulheres negras continuava sendo, quase que exclusivamente, se tornar empregadas domésticas. Nas casas onde trabalhavam elas não tinham o direito, por exemplo, de comer junto com os patrões e nem sequer podiam usar os mesmos banheiros que eles, no entanto eram elas quem sustentavam boa parte da pirâmide social e do status quo vigentes na época, pois eram elas as educadoras das crianças brancas, a quem davam amor e carinho enquanto seus próprios filhos cresciam sozinhos e desamparados. Histórias Cruzadas mergulha na realidade destas mulheres guiado pelo olhar utópico e sonhador da personagem central, Eugenia 'Skeeter' Phelan (Emma Stone), ela é uma aspirante a jornalista e escritora que se dispõe a escrever sobre o cotidiano das empregadas domésticas.
Skeeter consegue um emprego em um jornal local, onde responde a cartas de leitores se passando por outra jornalista. Para ser convincente naquilo que escreve, ela precisa entender mais sobre afazeres domésticos e o cotidiano de uma dona de casa, ela então decide pedir a ajuda de Aibileen (Viola Davis), a emprega de uma de suas amigas. Através dos relatos da mulher, Skeeter compreende que as histórias acerca daquela realidade precisavam ser contadas de uma forma que nunca antes tinha sido feita, com o apoio de uma editora ela dá inicio à empreitada, sem saber dos obstáculos que teria que transpor para realizar o trabalho e do risco que estaria correndo ao fazê-lo. Surge então a primeira dificuldade a ser enfrentada, sua editora lhe cobra o depoimento de no mínimo 12 mulheres, mas apenas Aibileen se dispõe a falar, mas logo em seguida Minny Jackson (Octavia Spencer) entra em cena, ela é outra empregada doméstica que, convencida por Aibileen e pela jornalista, também decide se abrir e contar sua história.
Aibillen e Minny têm em comum as marcas impressas pela vida, ambas já sofreram um bocado com os maus tratos de suas patroas e em suas própria casas, Minny é constantemente agredida pelo seu esposo que responde com violência às situações inerentes à sua dura realidade, Aibileen no entanto é mais marcada pelo seu passado, ela tenta superar uma grande perda e usa a resiliência para lidar com sua patroa, ela tem um forte apego pela criança de quem cuida, uma garotinha carente e desprezada pela mãe. Toda a realidade mostrada no filme aparenta estar maquiada pelas convenções sociais, as mulheres brancas vivem de aparências e se amparam no suporte dado pelas negras, ao contrário destas elas não têm autonomia e não têm a mínima condição de sequer criar seus filhos. No fundo percebemos que todas, tanto as brancas quanto as negras, são vítimas do machismo e de outros tipos de preconceitos, que resultam em feridas e na exclusão e na rejeição do diferente. Curiosamente as patroas aparentam estar mais carentes de aceitação e aprovação da sociedade do que suas empregadas.
Percebe-se que todas as outras mulheres brancas direcionam olhares tortos para Skeeter, elas reprovam seu relacionamento com as negras e o fato dela ser financeiramente independente e de ainda não ter se casado, de fato as aspirações que a jovem escritora demonstra ter são bem diferentes daquilo que se tinha como padrão de comportamento social... Mas Skeeter não é a única mulher branca que não se permite ser contaminada pelo preconceito, Celia Foote (Jessica Chastain) é outra que leva uma vida alheia às etiquetas sociais, ela é contestadora, porém de uma forma quase simplória, ela não é bem aceita pelas outras mulheres e não consegue viver plenamente a vida de convenções que a sociedade lhe cobra. O preconceito para ela não faz sentido pois ela também não tem a aceitação que busca, isto faz com que ela se sinta mais a vontade na companhia de uma negra do que junto das outras socialites.
Apontei este filme como um dos favoritos para a temporada de premiações pois ele é justamente o tipo de produção que uma boa parcela da crítica gosta de ovacionar, ele é tecnicamente bem feito, possui ótimas atuações (comento cada aspecto a seguir) e como eu já disse, ele traz uma agradável sensação de harmonia, que agora explico: Percebe-se no filme que os personagens antagonistas são bastante maniqueístas, a impressão que o roteiro nos passa é a de que eles são realmente covardes o que nos provoca repulsa, suas atitudes parecem demasiadamente exageradas em várias sequências e isto tem um motivo: Não permitir que nós espectadores nos identifiquemos com eles, assim, diante deles nossos preconceitos (todos os temos) parecem menores e quase inocentes, sentimos raiva, mas logo a sensação de paz vem junto com o convencimento de que definitivamente não somos como eles. Acredito que o filme será bem aceito mesmo no sul dos Estados Unidos, pois ele, ao mesmo tempo que acerca as contas com um passado recente, ainda nos prova que somos melhores por repudiarmos as atitudes extremas mostradas durante a história.
Além de nos provocar esta sensação de bem estar, o filme ainda tem tudo para agradar os cinéfilos mais exigentes e até mesmo o mais autêntico representante do público médio. Dia desses eu discutia cinema com um amigo e ele disse que “geralmente a crítica espera que o filme seja ao mesmo tempo 'cult' e capaz de cair no gosto popular com facilidade”, se isso é de fato uma verdade, Histórias Cruzadas deixa de ser um dos favoritos e se torna o favorito aos tão cobiçados prêmios. Ele tem tudo na medida certa, os toques de humor, a carga dramática... tudo funciona perfeitamente, tornando-o assim capaz de nos emocionar e nos cativar de uma forma maravilhosa. A fotografia é exuberante, a trilha sonora é ótima e o roteiro linear é muito bem escrito e evoca em nós tanto sentimento nobres, como a compaixão e a solidariedade, quanto o o repúdio e o asco.
As interpretações merecem realmente um destaque à parte, este é outro filme que comprova que no tocante às atuações este é o ano das mulheres no cinema. Comecei assistir ao filme esperando um show particular de Viola Davis, ela realmente dá um verdadeiro espetáculo, assim como a bela Emma Stone, no entanto quem rouba a cena são Octavia Spencer e Jessica Chastain, elas estão simplesmente perfeitas, Octavia nos convence apenas com o seu olhar expressivo que comove e ao mesmo tempo provoca ótimas risadas, Jéssica está sublime, não tem como não se simpatizar pela sua personagem, cuja composição caricata se contrapõe a tudo aquilo que o filme nos induz a repudiar. Histórias Cruzadas não é nem de longe um filme original ou inovador, mas nem por isso ele deixa de ser uma grande obra que merece aplausos de pé... Já estou na torcida para que ele arrecada um boa quantidade de prêmios, principalmente na categoria de atrizes coadjuvantes... Fiquem de olho e não o percam! Ultra recomendado!
Histórias Cruzadas está indicado ao SAG Awards 2012 nas categorias de Melhor Atriz (Viola Davis), Melhor Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain e Octavia Spencer), Melhor Elenco. No Globo de Ouro ele está indicado nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Atriz - Drama (Viola Davis), Melhor Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain e Octavia Spencer) e Melhor Canção Original.








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